sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Mais um ato.


Despertou tentando lembrar do sonho que acabara de ter, não que estivesse triste, só não compreendia o que estava sentindo. Olhou o quarto, uma completa desordem, ela até o preferia assim, condizia mais com seu estado mental bem como toda sua vida. Constatou mais uma vez que é ao acordar que seu pesadelo começa. Logo veio a dor de cabeça, o vazio e a consciência, enfim, estava realmente acordada.
Do vizinho, Simone cantava “então é natal”. Ficou mais deprimida ainda ao se dar conta que era dia 25 de dezembro. Lembrou-se de todos os compromissos familiares que seria submetida, almoço na casa da vó e churrasco no sítio do tio... Ela odiava tudo aquilo.  Pegou o celular para olhar as horas, estava cada vez mais difícil levantar-se, em geral ficava fitando a parede por um bom tempo e pensando na vida, ou na ausência desta, no entanto era preciso ajudar nas tarefas domésticas e o faria de forma automática. Era oito e meia, havia uma nova mensagem de texto no celular que a fez recordar de certa conversa na noite anterior.
“- O que você quer comigo?
- Namorar que não é. Sentir que ainda tem alguém para fazer companhia.
- Obrigada pela parte que me toca.
- Você também não quer namorar comigo não, tá se iludindo. Você ta me usando e eu usando você. Sejamos francos.
- Tô te usando pra que?
- Pra satisfazer teu vazio e você o meu.
- Você não merece que eu goste de você. Porque não da para aceitar simplesmente que eu gosto de você e ponto?
- Eu sei que sou insuportável nem eu mesmo me suporto, detesto essa vida.
- Porque não aceita que eu goste de você, poderia esta conversando com qualquer outra pessoa, mas estou aqui satisfazendo teus caprichos.
- Não é escolha sua, é que só tem eu de doido que conversa com você.
- Eu sei me fingir de normal.
- Mesmo que eu te ofenda ou faça qualquer coisa, você não vai largar do meu pé, porque você gosta de louco mesmo. Você precisa de mim pra te preencher mesmo que eu não dê à mínima.
-É a última vez que você me faz chorar.
- Você precisa do que tenho a oferecer.
- Desprezo?
- Deve ser isso, você quer ser desprezada se alimenta disso se eu fosse uma menina normal e bonita como você estaria em outro lugar agora e não conversando comigo, você vai me ver mais mal do que bem.
- Você tem consciência de que cada palavra que me diz esta me ferindo por dentro?
- Não, não tenho, to fora de mim, não to ligando a mínima.
- Ta vendo to chorando é isso o que você faz as pessoas.”
- Não tô nem ai, sou um monstro, mereço o sofrimento que to passando.
Remoendo as palavras em meio a soluços, pensou no que seria... Um ser-objeto, um ser descartável, reutilizável e substituível, sem identidade, nome ou sentimentos a serem respeitados, simplesmente, evocado quando necessário e dispensado tão prontamente fosse atendido à vontade daquele que o usava.
Ser-objeto, atendia telefonemas no meio da noite, nas madrugadas de bebedeira, para reclamar do trabalho, amigo ou família. Ser-objeto, não merece respeito, consideração e muito menos atenção. Ser-objeto é resignado, obediente e dedicado.
Sua mãe bate a porta, sinal que era hora de encarnara a vida lá fora.  

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