Despertou tentando lembrar do
sonho que acabara de ter, não que estivesse triste, só não compreendia o que
estava sentindo. Olhou o quarto, uma completa desordem, ela até o preferia
assim, condizia mais com seu estado mental bem como toda sua vida. Constatou
mais uma vez que é ao acordar que seu pesadelo começa. Logo veio a dor de
cabeça, o vazio e a consciência, enfim, estava realmente acordada.
Do vizinho, Simone cantava “então
é natal”. Ficou mais deprimida ainda ao se dar conta que era dia 25 de dezembro.
Lembrou-se de todos os compromissos familiares que seria submetida, almoço na
casa da vó e churrasco no sítio do tio... Ela odiava tudo aquilo. Pegou o celular para olhar as horas, estava
cada vez mais difícil levantar-se, em geral ficava fitando a parede por um bom
tempo e pensando na vida, ou na ausência desta, no entanto era preciso ajudar
nas tarefas domésticas e o faria de forma automática. Era oito e meia, havia
uma nova mensagem de texto no celular que a fez recordar de certa conversa na
noite anterior.
“- O que você quer comigo?
- Namorar que não é. Sentir que
ainda tem alguém para fazer companhia.
- Obrigada pela parte que me toca.
- Você também não quer namorar
comigo não, tá se iludindo. Você ta me usando e eu usando você. Sejamos francos.
- Tô te usando pra que?
- Pra satisfazer teu vazio e você
o meu.
- Você não merece que eu goste de
você. Porque não da para aceitar simplesmente que eu gosto de você e ponto?
- Eu sei que sou insuportável nem
eu mesmo me suporto, detesto essa vida.
- Porque não aceita que eu goste
de você, poderia esta conversando com qualquer outra pessoa, mas estou aqui
satisfazendo teus caprichos.
- Não é escolha sua, é que só tem
eu de doido que conversa com você.
- Eu sei me fingir de normal.
- Mesmo que eu te ofenda ou faça
qualquer coisa, você não vai largar do meu pé, porque você gosta de louco
mesmo. Você precisa de mim pra te preencher mesmo que eu não dê à mínima.
-É a última vez que você me faz
chorar.
- Você precisa do que tenho a
oferecer.
- Desprezo?
- Deve ser isso, você quer ser
desprezada se alimenta disso se eu fosse uma menina normal e bonita como você
estaria em outro lugar agora e não conversando comigo, você vai me ver mais mal
do que bem.
- Você tem consciência de que cada
palavra que me diz esta me ferindo por dentro?
- Não, não tenho, to fora de mim,
não to ligando a mínima.
- Ta vendo to chorando é isso o
que você faz as pessoas.”
- Não tô nem ai, sou um monstro,
mereço o sofrimento que to passando.
Remoendo as palavras em meio a
soluços, pensou no que seria... Um ser-objeto, um ser descartável, reutilizável
e substituível, sem identidade, nome ou sentimentos a serem respeitados,
simplesmente, evocado quando necessário e dispensado tão prontamente fosse atendido
à vontade daquele que o usava.
Ser-objeto, atendia telefonemas no
meio da noite, nas madrugadas de bebedeira, para reclamar do trabalho, amigo ou
família. Ser-objeto, não merece respeito, consideração e muito menos atenção.
Ser-objeto é resignado, obediente e dedicado.
Sua mãe bate a porta, sinal que
era hora de encarnara a vida lá fora.
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